O San-São mais famoso de todos

Por Alexandre Giesbrecht, 14/08/2010, 13h03, 7 comentários

Seria o con­fronto entre o então cam­peão mun­dial Santos — que meses mais tarde con­quis­taria o bi — contra um São Paulo já com um elenco econô­mico por causa da cons­trução do Mo­rumbi. Apesar desse elenco econô­mico, o tri­color ter­mi­naria aquele Cam­pe­o­nato Pau­lista de 1963 com o vice-campeonato, seis pontos atrás do cam­peão Pal­meiras e oito na frente do Santos, que teve sua sequência de três tí­tulos es­ta­duais que­brada. Àquela al­tura do pri­meiro turno os times do in­te­rior já ti­nham jo­gado mais vezes que os ditos grandes, tanto é que numa ta­bela por pontos ga­nhos o XV de Pi­ra­ci­caba li­de­rava, com ca­torze pontos em onze jogos, mas na­quela época o que se le­vava em con­si­de­ração eram os pontos per­didos, fór­mula que era pos­sível uti­lizar quando as vi­tó­rias va­liam dois pontos. Por pontos per­didos, o Pal­meiras já de­tinha a ponta, com dois pontos per­didos em sete jogos, ambos per­didos em em­pates fora de casa contra São Bento e Santos. O Santos vinha logo atrás, com três pontos per­didos em oito jogos, en­quanto o São Paulo es­tava mais atrás, com seis pontos per­didos em nove jogos.

Mas poucos são-paulinos lembram-se do Pau­listão de 1963 pelo vice-campeonato, pois há uma lem­brança muito mais sa­bo­rosa da­quela cam­panha: a go­leada por 4 a 1 sobre o Santos, no Pa­ca­embu, quando o ad­ver­sário li­te­ral­mente fugiu de campo. Al­gumas fontes apontam er­ro­ne­a­mente que o clás­sico contra o Peixe deu-se no dia 14, uma quarta-feira, mas na ver­dade foi no dia se­guinte. Seria o ter­ceiro jogo pelo São Paulo de Pagão, então com 28 anos, de­pois de perder es­paço para Cou­tinho no Santos e sair bri­gado da Vila Bel­miro. Talvez por isso, o cen­tro­a­vante teve uma atu­ação es­pe­ta­cular, par­ti­ci­pando de dois gols e mar­cando outro.

Quem também se des­tacou foi o pa­ra­guaio Ce­cilio Mar­tínez que co­meçou a jo­gada do pri­meiro gol, logo aos seis mi­nutos, com um passe para Faus­tino na di­reita. O meia passou por dois ad­ver­sá­rios, cortou para o meio e, ainda fora da área, chutou ras­teiro e Gilmar não con­se­guiu al­cançar. Contra o Santos da­quela dé­cada, o placar de 1×0 es­tava longe de ser ga­rantia de nada, es­pe­ci­al­mente no co­me­cinho do jogo. Cinco meses antes, em 7 de março, o São Paulo abrira o placar aos 28 mi­nutos contra o Peixe em par­tida pelo Rio–São Paulo e ter­minou o pri­meiro tempo ven­cendo por 2 a 1. O placar final da­quele jogo? Santos 6 a 2, a maior go­leada san­tista na his­tória do clássico.

E a his­tória pa­receu repetir-se quando Pelé em­patou o jogo, aos vinte mi­nutos. A sen­sação de déjà-vu au­mentou aos 37, com o São Paulo de novo na frente, igual­zinho ao con­fronto an­te­rior. Mauro tinha a bola na in­ter­me­diária, mas perdeu-a para Pagão, que tocou para Benê e re­cebeu de volta en­quanto o meia dis­pa­rava. O lan­ça­mento de Pagão foi pre­ciso, e Benê re­cebeu a bola livre na frente de Gilmar para de­sem­patar. As se­me­lhanças com o jogo de março pa­raram por aí.

Pagão co­brou falta para Sa­bino, um ata­cante que tinha vindo em 1961 da In­ter­na­ci­onal de Be­be­douro, onde era co­nhe­cido pelo ape­lido de Pelé de Be­be­douro — não por causa de seu fu­tebol, até ra­zoável, mas pela se­me­lhança fí­sica. Ele lançou Ce­cilio Mar­tínez pela es­querda. O pa­ra­guaio pe­ne­trou na área e cruzou para a boca do gol, onde Sa­bino des­locou Gilmar, que nem se mexeu, abrindo dois gols de van­tagem. A con­fusão co­meçou aí. O ban­dei­rinha teria apon­tado im­pe­di­mento no lance, mas foi ig­no­rado pelo ár­bitro Ar­mando Mar­ques, que deu o gol. Coin­ci­dência ou não, duas se­manas antes o Santos tinha feito um pro­testo na Fe­de­ração Pau­lista, ale­gando que Ar­man­dinho es­taria sendo tendencioso.

O cen­tro­a­vante san­tista Cou­tinho re­solveu peitar o ár­bitro: “Sa­tis­feito, ‘Flor­zinha’?” Foi ex­pulso no ato. “Eu o chamei pelo nome e falei: ‘Pode ir em­bora, seu Ho­nório.’”, disse Ar­mando em en­tre­vista à Re­vista Ofi­cial do São Paulo em 2010. Pelé, ges­ti­cu­lando bas­tante, também foi re­clamar. Na mesma en­tre­vista, Ar­mando também lembra o que disse para o Atleta do Sé­culo: “Edison, o se­nhor está ex­pulso. Retire-se.” Na época os car­tões ver­melho e ama­relo ainda não ti­nham sido in­ven­tados, e o juiz apenas si­na­li­zava as expulsões.

O pri­meiro tempo ter­mi­naria sem mai­ores per­calços, mas o téc­nico são-paulino, Oswaldo Brandão, já ima­gi­nava que o se­gundo tempo seria di­fe­rente. “Esse jogo não vai acabar”, disse, na saída para o in­ter­valo. “O Nélson Con­se­tino [mé­dico do Santos] veio me falar que eles vão melar o jogo.” O medo do Santos seria levar uma go­leada. “Não uma sova qual­quer, de 5×1 ou 6×1″, es­creveu Con­rado Gi­a­co­mini no livro Dentre os Grandes, És o Pri­meiro, “mas um mas­sacre de oito ou nove, que po­deria virar man­chete no mundo todo, jus­ta­mente no mo­mento em que o Peixe co­me­çava a se des­tacar in­ter­na­ci­o­nal­mente. Seria um escândalo!”

Em­bora hou­vesse es­pe­cu­lação de que o Santos nem vol­taria dos ves­tiá­rios, o time voltou a campo para o se­gundo tempo. O pro­blema é que, ao invés de voltar com nove jo­ga­dores, apenas oito es­tavam em campo: o es­tre­ante lateral-direito Apa­re­cido ficou no ves­tiário. “[Apa­re­cido] mis­te­ri­o­sa­mente contundiu-se no ves­tiário (?!)”, iro­nizou Gi­a­co­mini. As re­gras do fu­tebol só pas­sa­riam a per­mitir subs­ti­tui­ções a partir de Copa do Mundo de 1970, então a par­tida se­guiu com uma van­tagem nu­mé­rica são-paulina de três ho­mens. Com apenas três mi­nutos de jogo, a su­pe­ri­o­ri­dade passou a ser de quatro ho­mens. Pepe trombou com Bel­lini em um lance normal e jogou-se ao chão, su­pos­ta­mente sem con­di­ções de se­guir jo­gando. Não dava para acre­ditar que era apenas coincidência.

Mas o cai-cai não foi rá­pido o bas­tante para im­pedir o quarto gol são-paulino. Com a bola na di­reita, Ro­berto Dias viu Pagão dis­pa­rando pelo meio e fez o lan­ça­mento. Pagão re­cebeu e soltou a bomba, ven­cendo Gilmar. O gol seria o pe­núl­timo lance do jogo. Na saída de bola, Dorval deu um chute e caiu ao gra­mado. Outro que não po­deria mais con­ti­nuar. Quando um time fica com menos de sete jo­ga­dores em campo, o ár­bitro é obri­gado a en­cerrar a par­tida. Os são-paulinos ten­taram de­mover os san­tistas da ideia de aban­donar o campo, sem sucesso.

No dia se­guinte, o jornal A Ga­zeta Es­por­tiva es­tam­paria em man­chete “Santos fugiu do campo”.

7 comentário(s)

  1. Eu es­tava nesse jogo ‚é um jogo que ja­mais esqucerei.….Fui eu,Gaspar um filho de Por­tu­gues ‚tor­cedor fa­na­tico da Portuguesa,pois na­quele tempo a Luza ainda tinha uma torcida,e o Luiz Carlos um Gaucho que tinha aca­bado de mudar para São Paulo,torcedor do Inter,depois desse jogo o Luiz Carlos virou São Pau­lino fanatico.…..A pouco tempo atraz ma en­con­trei com o Gaspar, fazia mais de 40 anos que nós não se viamos…No meio da nossa con­versa ‚surgiu esse lem­brança de muitos anos atraz ‚eu per­guntei se ele ainda era tor­cedor da Portuguesa,e el me rs­pondeu que de­sistiu de torcer pra Luza.…..O Luis Carlos én­trou na po­licia civil,e sumiu.….Mas foi um jogo inesquecivel

    Nelson Arjona (1), 20 de agosto de 2011, 13:43

  2. Eu me lembro desse jogo, ouvia ele pela rádio ban­dei­rantes de São paulo — nar­rado pelo pedro Luis Já fa­le­cido, sei que foi em Agosto, não lem­brava o ano. Na­quela época esse dia era fe­riado eu tinha um amigo sam­pau­lino fa­ná­tico que guardou o re­corte de a Ga­zeta es­por­tiva que se vê aí no blog re­al­mente foi um jogo me­mo­rável. Obrigado

    Antonio Nemeth (1), 9 de março de 2012, 17:36

  3. Eu também es­tava nesse jogo. Foi inacreditável.

    gilberto maluf (1), 5 de abril de 2012, 15:24

  4. Sou são-paulino e nasci apenas no ano se­guinte, mas meu fa­le­cido pai, tor­cedor do Santos, es­teve nesse jogo. Ele era sócio do clube e quase sempre subia a serra para as­sistir aos clás­sicos. Cos­tu­mava me contar his­tó­rias fas­ci­nantes sobre as par­tidas da­quela época e claro, me contou essa também. Se­gundo ele, esperava-se uma vi­tória fácil do Santos e de re­pente já es­tava 3×1. Foi surpreendente.

    Waldemar Alves Ribeiro Filho (1), 5 de maio de 2012, 21:33

  5. Nessa época eu tinha 10 anos e já era são-paulino. Na minha ci­dade, Campo Grande (MS), ainda não havia te­le­visão e eu ouvia os jogos pelo rádio, ge­ral­mente pela Rádio Ban­dei­rantes, com nar­ração do ines­que­cível Fiore Gi­li­otti. Também não havia Em­bratel e as trans­mis­sões eram muito ruins, por isso não ouvia todos os jogos. Esse jogo eu não ouvi, me passou des­per­ce­bido. Lembro-me que do dia se­guinte, um amigo meu que fre­quen­tava minha casa chegou dando a no­tícia da vi­tória do São Paulo e da fuga de campo do Santos, com Pelé e Cia. No mo­mento não acre­ditei, mas de­pois fi­quei muito feliz. Pena que o Tri­color não foi cam­peão nesse ano.

    Ary Novaes (1), 2 de dezembro de 2012, 9:01

  6. Cou­tinho falou sobre esse jogo num dos pro­gramas Go­laço que o Milton Neves apre­sen­tava pela ex­tinta Rede Mu­lher. Nesse pro­grama ele disse que falou Bo­neca para Ar­mando Mar­ques que de ime­diato o ex­pulsou, “Sr Wilson An­tonio Ho­nório, o se­nhor não par­ti­cipa mais do meu jogo” ou “da minha par­tida”, não lembro bem. Disse também que nem bem tinha che­gado no ves­tiário e logo chegou Pelé que foi ex­pulso também.

    Pedro Luiz Boscato (1), 1 de maio de 2013, 23:17

  7. FUI ASSISTIR ESSE JOGO NO DIA 15.08.1963, JUNTAMENTE COM VARIOS
    PARENTES, ALGUNS TORCEDORES DO CORINTHIANS, QUE VIBRARAM
    COM O SÃO PAULO F.C. SOU TORCEDOR DO SÃO PAULO DESDE MEU
    NASCIMENTO EM 1942. MEU PAI FOI FUNDADOR DO SPFC.
    NESSE DIA , 15.08.63 , PELA MANHÃ , ESTAVA NO IBIRAPUERA, SENDO
    AGRACIADO COM O POSTO DE ASPIRANTE DO EXERCITO BRASILEIRO
    FORMADO PELO CPOR /SP , UM DOS ORGULHOS DA MINHA VIDA.
    PORTANTO , COMEMORO 50 ANOS DE OFICIALATO E UMA DAS MAIS
    EMOCIONANTES VITORIAS DO MEU SPFC.

    MOACYR RELLO DE ARAUJO FILHO (1), 23 de agosto de 2013, 16:52

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